‘Eu lutei muito pra ser mulher’, diz 1ª musa trans do Salgueiro | Carnaval 2018 no Rio de Janeiro

Com a responsabilidade de fazer parte de um enredo que fala sobre a história de grandes mulheres negras, Kamilla Carvalho, 30 anos, é a primeira musa transgênero da Acadêmicos do Salgueiro. Apesar de estar representando a escola da Zona Norte do Rio, ela é nascida e criada no Morro da Providência, no Centro do Rio, onde toda a paixão pelo samba começou.

A primeira vez que Kamilla pisou na Sapucaí foi antes da transformação, na escola de samba da região onde mora, a Vizinha Faladeira, onde também desfilou por anos como passista.

'Eu lutei muito para ser mulher', diz Kamilla Carvalho, 1ª musa trans do Salgueiro

‘Eu lutei muito para ser mulher’, diz Kamilla Carvalho, 1ª musa trans do Salgueiro

Além do carnaval, ela também trabalha como cabelereira e foi assim que conheceu Regina Celi, presidente do Salgueiro, em um salão de beleza perto da escola. As duas ficaram amigas e ela passou a frequentar a agremição.

Em seu primeiro ano como musa, Kamilla não esconde a empolgação. “Esse vai ser o ano mais marcante de todos. Estou numa ansiedade surreal”, disse.

1) Como começou a sua relação com o carnaval?

Eu amo carnaval desde criança. Eu sou nascida e criada no Morro da Providência. Minha vizinha de porta é a falecida Dodô da Portela, e eu moro num lugar que é um arquivo do samba. Ali tem os barracões das escolas de samba, então a proximidade é muito fácil, você não precisa se deslocar para estar em contato com o carnaval.

2) Já sofreu algum preconceito na vida por ser trans?

Já. O maior deles foi no aeroporto. Eu estava com umas pulseiras e quando eu passei no detector de metais, apitou. Eu tirei as pulseiras e apitou de novo. Quiseram me revistar e colocaram um homem pra me revistar. Eu não queria, mas falaram que se eu não aceitasse iam ter que chamar a Polícia Federal. No final, eu passei por mais um constrangimento porque eu me atrasei e aí me anunciaram e eu ainda não tinha trocado o meu nome judicialmente. Falaram ‘senhor fulaninho de tal’. Nesse dia eu resolvi trocar [de nome], porque eu nem ligava. Mas, nesse dia, eu resolvi entrar com um processo de mudança de nome. Eu achei uma humilhação.

3) Você acha que no mundo do samba as pessoas são mais tolerantes com as diferenças?

Quando você pega um público de carnaval, que é uma festa muito abrangente em nível internacional, você vê que um espaço desse deveria ter tido há muito tempo. Várias trans já tiveram destaque. A Ariadna [ex-BBB] , a Roberta Close saiu várias vezes em destaque.

4) Você acha que ainda existe muito preconceito com as pessoas transgênero?

Muito. A maioria das pessoas acham que travesti é obrigado a tudo, tem uma má brincadeira que falam pro amigo ‘e aí? Tu vai?’. Essa parte pessoal é como se você não tivesse uma escolha, você tem que sair até com um cara desdentado, um cara horrível, porque você não tem opção, você é travesti. Uma coisa que me incomoda é você estar em um lugar e as pessoas ‘cutucam’ todo muito que está junto pra falar ‘Olha lá, traveco está vindo’. E todo mundo olha e você já percebeu. Isso me incomoda a ponto de eu chegar e falar ‘Oi, tudo bom? Quer falar comigo?’. Porque aí a pessoa fica toda sem graça. Quando você passa a fazer a pessoa sentir, ela se envergonha mais do que você e não faz mais.

5) Você escolheu ser mulher em uma sociedade ainda considerada muito machista. Como você vê essa situação?

Eu estava vendo o discurso da Oprah esse fim de semana [Oprah Winfrey, durante o Globo de Ouro] e é aquilo ali, é perfeito. Você ser mulher, é ter atitude. Mesmo que eu tenha escolhido, você tem que vestir uma capa de uma coisa que pra mim foi tudo. Eu lutei muito pra ser mulher.

6) Já passou por algum perrengue na Avenida?

Já desfilei em um ano pelo Salgueiro, em 2009, em um carro que tinha muito vidrilho que arranhou a minha perna toda. Estava machucando e você tem que continuar a se desenvolver até o final do desfile.

7) O que você faz pra manter o corpo?

Com o carnaval, eu estou tendo mais responsabilidade com o corpo. As pessoas me exigem muito isso. ‘Já começou a dieta? que você não compra marmita?’. Eu malho, mas não tenho aquele gás de uma pessoa que é fitness. Eu não gosto de aeróbico, mas estou sambando sempre, aí eu jogo uma mentira para o personal. Eu faço musculação, faço estética às vezes, mas a dieta é o ponto principal. Eu tenho 1,78 cm de altura, chego a 1,95 cm com salto. Sou a musa mais alta do Salgueiro. Eu tinha problemas com altura, mas aqui, quando você vai se apresentar, te dá um destaque maior, é bom.

8) Quem é o seu ídolo anônimo na escola?

Eu conheço muita gente aqui na escola, mas sou fã do Carlinhos [coreógrafo]. Já fiz aulas com ele para ter uma expressão corporal no desfile. Ele é maravilhoso.

9) Qual a sua ala do coração?

É difícil escolher uma só. Eu gosto muito da ala do Maculelê, é muito bem coreografada, você olha e te dá um impacto visual, mas também amo a ala das passistas.

10) Como você vê o carnaval nesse ano de crise financeira?

Eu estou numa escola enjoada. Aqui, mesmo com crise financeira, as coisas já estão bem adiantadas, praticamente prontas, entendeu? O Salgueiro é bem diferente. O importante do carnaval em tudo é você não deixar de ter a garra e estar sempre com a escola. Ser da escola é você vestir a camisa, independente da situação financeira, problema físico na rua.

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