Folião é eletrocutado em poste com câmera irregular do Carnaval de SP

MARIANA ZYLBERKAN E FABRÍCIO LOBEL SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ainda com o abadá que sempre usava em festas de Carnaval, o estudante de engenharia Lucas Antônio Lacerda da Silva, 22, caiu desmaiado após levar um choque ao encostar em um poste de sinalização de pedestres na esquina das ruas da Consolação e Matias Aires, na região central de São Paulo. A tragédia ocorreu durante a passagem do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta no final da tarde de domingo (4). Ao lado de um amigo, Lucas estava a procura de um banheiro, quando se apoiou no equipamento. Assim que caiu na calçada após a primeira descarga elétrica, encostou o pescoço no equipamento e foi eletrocutado. O estudante Heitor Ciciliano, 21, junto com ele no momento do acidente, lembra que estava atrás das grades de ferro (instaladas pela CET nessa esquina para dar vazão aos foliões), quando percebeu que o amigo havia caído. Heitor conta que a ambulância demorou mais de meia hora para chegar ao local e que, durante esse período, uma médica que estava no bloco tentou reanimá-lo com massagens cardíacas. “Pedi ajuda em uma base da GCM que estava perto, mas os policiais [guardas] disseram que não tinham treinamento de primeiros socorros e não podiam mexer nele.” Lucas foi levado para a Santa Casa, mas não resistiu. O caso foi revelado pela Folha. CÂMERAS No poste em que Lucas foi eletrocutado haviam sido instaladas na última sexta (2) duas câmeras de segurança para monitorar a passagem do blocos. A instalação foi feita pela GWA Systems, essa contratada pela Dream Factory, vencedora da concorrência da gestão João Doria (PSDB) para gerir o patrocínio de R$ 20 milhões do Carnaval de rua. Essas duas câmeras, porém, foram instaladas de forma irregular, segundo a prefeitura. De acordo com a gestão, não havia autorização para colocá-las no poste da CET nem para ligá-las por meio de fios esticados até um poste de energia, este sob a responsabilidade do Ilume, departamento de iluminação pública da prefeitura. Funcionários do restaurante Sujinho, que fica em frente ao local do acidente, relataram que o poste de iluminação onde foram instalados os fios para ligar as câmeras estava dando choque em quem passava pela calçada. PERFIL Trabalhar de forma voluntária era uma das principais ocupações do universitário. “Era uma pessoa nata para ajudar os outros. Não havia tempo ruim para ele”, conta Monica Stevanato, 42, diretora da creche beneficente para a qual Lucas ajudou a montar um site institucional. “Nosso espaço aqui é acanhado, modesto. Então, eu lembro de entrar numa sala pequena e encontrar ele sentado no chão trabalhando com outros voluntários. Na hora falei que correria para arranjar uma cadeira para ele. Ele riu e disse que ele estava bem daquele jeito e que eu não deveria me preocupar”, lembra Monica. Lucas havia completado 22 anos na última sexta (2), data que comemorou com os amigos na república universitária em que morava com mais cinco rapazes, numa rua de classe média de Santo André. Desde o meio do ano passado, trabalhava com uma associação internacional de voluntariado, a Aiesec. A ideia da associação é agenciar estrangeiros que queiram trabalhar em projetos sociais em troca de estadia no país. Lucas primeiro abrigou um equatoriano na república. Depois, passou a coordenar o trabalho de um grupo de colombianas. Após as jornadas de trabalho, mostrava os pontos turísticos de São Paulo aos novos amigos estrangeiros. Em troca, ia praticando um pouco de inglês e espanhol. Em dezembro, assumiu um cargo permanente na ONG, o que lhe renderia mais responsabilidade e trabalho em 2018. O novo cargo foi celebrado com os amigos. Entre as responsabilidades neste ano estaria a de conectar brasileiros a projetos sociais fora do país. Ele próprio sonhava em viajar a trabalho. ‘SÓ SORRIA’ “Eu não me lembro do Lucas triste. Ele estava sempre sorrindo, sempre brincando”, diz Bianca Nishimura, 22, que também trabalha na ONG. Além da entidade, Lucas era também bolsista de um projeto de educação de jovens tocado pela Universidade Federal do ABC, o PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência ). estar cursando engenharia biomédica na universidade, encaixou-se melhor nos projetos de ensino de biologia em um colégio da rede pública de Santo André. Amigos de Lucas no projeto organizavam nesta segunda-feira (5) viagens de carro até Cardoso (a 567 km de São Paulo), a cidade natal do rapaz, onde o corpo será enterrado na manhã desta terça (6). A sempre festiva república em que Lucas morava estava em silêncio nesta segunda. Amigos chegaram para amparar os companheiros de casa. Outros se preparavam para viajar até o velório. Era meu irmão, conclui o amigo de república Rodrigo Carvalho.

Todos os Direitos Reservados a(o) criador(a) deste conteúdo. Acesse o link original.

Siga e curta-nos!