Numa coisa a Judith Butler acertou: a Barbie é um perigo!

No fim do ano passado, em sua coluna na Folha de S. Paulo, João Pereira Coutinho fez uma lista de crimes hipotéticos que as futuras gerações terão receio de cometer. Sendo uma ironia contra os movimentos de autoafirmação coletiva que desprezam as vontades individuais, o exercício de futurologia é propositadamente exagerado e estapafúrdio. No entanto, por mais malucos que sejam os “crimes” descritos, a possibilidade de que se tornem reais é assustadoramente verossímil.

Tomemos como exemplo o “crime de imposição de gênero”: os pais deverão ignorar o fato biológico na designação do gênero dos filhos! Brincando, o autor diz que “durante os primeiros 16 anos de vida da descendência, as tradicionais distinções entre ‘feminino’ e ‘masculino’ serão abolidas — na linguagem, no vestuário, nos brinquedos e até na onomástica. ‘Ele’ e ‘ela’, por exemplo, darão origem à palavra ‘el@’ (pronunciada ‘el-arroba’, como em ‘El-arroba já voltou da escola?’)”.

Muito já se disse sobre o ridículo de padronizar as roupas “de menino” e “de menina” (como se estivéssemos numa ditadura igualitarista) e sobre a chatice surreal de usar expressões como “garotx” para evitar distinções de gênero — e isso faz com que a projeção do Coutinho cause uma sonora gargalhada —, mas existe pelo menos um elemento do “crime” que pode inscrevê-lo numa legislação real dentro de poucos anos: os brinquedos!

Pode até parecer exagero, mas um brinquedo não é apenas um pedaço de plástico com rodinhas ou articulações. Antes de tudo, é uma ferramenta que materializa o mito para crianças em idade de grande absorção intelectual. Em termos de educação feminina, é provável que a boneca Barbie seja mais influente do que mil comédias românticas e mil manuais de etiqueta. O mesmo pode ser dito das action figures de Star Wars e G.I.Joe na formação dos meninos.

Estudar a história dos brinquedos de sucesso pode parecer “cultura inútil” para muita gente, mas não se engane. Se você é contra os ativistas da Escola Judith Butler de pensamento (que propõem uma nova cultura educacional), preste mais atenção nas brincadeiras das crianças. Se é a favor, também. Sendo a preferência sexual inata ou não, numa coisa eles estão certos: brinquedos são decisivos na constituição psicológica dos indivíduos.

Se as histórias que vemos em filmes, contos e HQs são nossas mestras, não devemos esquecer os brinquedos, talvez a mais poderosa forma de narrativa do mundo, capaz de criar interações e intimidades sem precedentes ou subsequentes na vida de um ser humano. É por isso que a piada do Coutinho consegue ser engraçada e atemorizante ao mesmo tempo. Não faz sentido criar um “crime de imposição de gênero”, mas faz todo sentido admitir que, afinal de contas, brinquedo é coisa séria.

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No segundo episódio de Brinquedos que Marcam Época, série documental da Netflix, podemos acompanhar a história da Barbie desde sua criação até os dias atuais. A esse respeito, escrevi um artigo que pode ser acessado aqui. O que o documentário não mostra com a mesma riqueza de detalhes é o surgimento do Ken. Já em 1961, dois anos após o debut da boneca, graças a uma avalanche de cartas em que as meninas pediam um namorado para a Barbie, os executivos da Mattel entenderam que precisavam pôr mãos à obra.

Do mesmo modo que a criadora Ruth Handler batizou a Barbie em homenagem à filha Bárbara, escolheu o nome Ken em homenagem ao filho Kenneth. O batismo, no entanto, foi a única parte fácil do projeto. Se o lançamento de uma boneca — com seios! — que representava uma mulher adulta já foi um escândalo na indústria de brinquedos, a criação de um boneco nas mesmas condições era um desafio ainda maior. Os designers chegaram a projetar um molde de Ken com genitais explícitos, o que felizmente foi substituído por uma protuberância neutra e menos apelativa.

Mas o melhor vem agora: Barbie só pôde ser lançada na época porque os publicitários convenceram as mães de que a boneca seria como um modelo de comportamento, um exemplo para as filhas que logo cresceriam e sairiam em busca do melhor casamento possível. Isso quer dizer que a boneca deveria se casar com o Ken? É o que sugere o primeiro comercial de TV, mas isso foi um erro medonho. Com a ajuda de psicólogos e pesquisas de mercado, Ruth Handler rapidamente entendeu que a Barbie jamais poderia se casar.

— Se a marca dissesse que ela estava casada para sempre — explica Jill Barad, ex-diretora da Mattel —, isso limitaria muito a brincadeira.

Ou seja: uma personagem projetada para o casamento nunca deveria se casar porque as imagens da vida conjugal não possuem o mesmo glamour do período que vai do primeiro beijo ao anel de noivado. Será que os publicitários sabiam que estavam concebendo os yuppies que dominariam a cena a partir dos anos 1980? Eternos namorados, Barbie e Ken se tornaram símbolos heterossexuais poderosos cujo trabalho era se vestir com elegância e desfrutar do melhor que a América pudesse lhes oferecer.

Como curiosidade, vale dizer que o contrário aconteceu com o Ken da vida real. Passou por uma juventude problemática, vítima de piadinhas murmurantes e às vezes bullying escrachado. Inspirou um boneco, afinal de contas, ou uma “boneca”, no dizer dos zombadores, e não uma action figure como o Falcon ou o Comandante Cobra. Casou-se e teve três filhos, mas diversas biografias dão conta de que fosse homossexual. Em 1994, quando morreu, rumores de que estivesse com Aids quase implodiram a Mattel.

Ruth Handler jamais admitiu a doença. Havia o orgulho de uma mãe tradicional, havia um castelo de sonhos a preservar e, sobretudo, havia milhões de dólares em jogo.

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