Querem que as gostosas se fantasiem de unicórnio no carnaval

Está circulando na internet um vídeo denominado Fantasias para NÃO usar no Carnaval. O objetivo é mostrar como as fantasias listadas são preconceituosas e podem desrespeitar os grupos minoritários. Abaixo apresento, uma a uma, as fantasias banidas e as justificativas que os neomoralistas dão à proibição. Na sequência seguem os meus comentários, no mais das vezes reduzidos a uma única pergunta que não quer calar. Deixo claro que estou me dirigindo aos neomoralistas que querem regular as fantasias e não aos leitores em geral.

Fantasia 1: Homem vestido de mulher

Justificativa dos neomoralistas: os homens vestidos de mulher (e até mesmo de noiva) estão por todas as cidades do país no Carnaval. Mas por que está errado? Além de ser machista e desrespeitoso com as próprias mulheres, essa “moda” é preconceituosa contra as pessoas trans e apenas reforça os estereótipos de gênero.

Pergunta que não quer calar:  o que acontece se um trans de verdade for confundido com um folião incorreto? Será espancado pelos protetores das minorias?

 

Fantasia 2: Índio ou índia

Justificativa dos neomoralistas: a fantasia de índio ou índia representa uma cultura ampla e diversa, e não apenas um indivíduo, construído no Carnaval de forma estereotipada. De que adianta usar um cocar para curtir o bloco enquanto a população indígena é vítima de genocídio?

Pergunta que não quer calar: depois do genocídio, os poucos índios que restaram também vão perder o direito da representação simbólica?

 

Fantasia 3: Cigano ou cigana

Justificativa dos neomoralistas: a cultura dos ciganos é muito marginalizada na sociedade e qualquer tipo de fantasia que remeta a este grupo perpetua os estereótipos de vestimenta e acessórios associado a ele. Não é possível reduzir a cultura do povo cigano a uma bandana com lantejoulas douradas.

Pergunta que não quer calar: por que vocês dizem “cigano e cigana” e não “cigana e cigano”? Que preconceito é esse? Ou melhor: por que não dizem “ciganx” de uma vez?

 

Fantasia 4: Empregada doméstica ou enfermeira (de forma sexualizada)

Justificativa dos neomoralistas: mulheres e homens fantasiados de empregada doméstica (e outras profissões, como enfermeira), na maioria das vezes de forma sexualizada, evidencia as relações de poder e o machismo.

Pergunta que não quer calar: em vez de fazer uma pergunta, vou contar um segredo aos neomoralistas. A minha namorada é tão gostosa que qualquer fantasia que ela vestir ficará sexualizada: freira, policial, professora, executiva, é só escolher (vejam que listei apenas as profissões que representam autoridade, o que torna as “relações de poder” muitíssimo mais saborosas).

 

Fantasia 5: Nega maluca

Justificativa dos neomoralistas: é um caso de blackface e racismo que ridiculariza as mulheres negras. O blackface surgiu por volta de 1830, quando homens brancos se pintavam de preto e se apresentavam para a aristocracia branca com o objetivo de satirizar a população negra.

Pergunta que não quer calar: o blackface que surgiu em 1830 nos Estados Unidos possuiria exatamente o mesmo sentido que uma fantasia de carnaval no Brasil de 2018?

 

Fantasia 6: Iemanjá

Justificativa dos neomoralistas: Iemanjá é uma divindade africana do Candomblé e da Umbanda, que até hoje sofrem com a intolerância e o racismo. Usar essa fantasia demonstra desrespeito com essas religiões.

Pergunta que não quer calar: os antigos romanos cometiam preconceito ao se vestirem de deuses e deusas nas bacanais que deram origem ao carnaval?

 

Fantasia 7: Muçulmano ou muçulmana

Justificativa dos neomoralistas: Assim como no caso de Iemanjá, usar adereços da cultura muçulmana é desrespeitoso com a religião islâmica.

Pergunta que não quer calar: por que os muçulmanos seriam melhores que judeus, católicos, espíritas ou satanistas? Nessa lógica, fantasias de padre, rabino e diabinho — ou diabinha, que delícia! — também deveriam ser banidas. (Xi, querida, aquela roupinha de freira vai ter que ficar no armário este ano).

 

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Tantas regras bobinhas e caricatas, mas até aí tudo bem, todo mundo tem o direito de contribuir para o Império da Boçalidade que está se formando no Brasil. O que não dá para admitir, mas não dá mesmo, de jeito nenhum, são as sugestões de fantasias que vocês deram para quem quiser pular um carnaval “do bem”. Unicórnios e árvores? É demais, é demais!

Será que ninguém aí respeita a natureza? As plantas eram deusas em muitas das culturas ancestrais destruídas pelos gases da Revolução Industrial. Fantasiar-se de pinheiro ou flamboyant é uma tremenda falta de respeito com espécies que também podem sofrer um genocídio em breve. Será que isso não ocorreu a algum dos legisladores aí?

Quanto aos unicórnios, meu Deus, é a gota d’água! Unicórnios são seres puros e sensíveis que não merecem figurar numa festa etílica e escrachada como o carnaval. E se alguém duvidar da existência dessas criaturas estará cometendo um crime contra os sonhos infantis de muita, muita gente.

Como não aceito fantasias de unicórnios e pés-de-alface e ninguém aí aceita as fantasias tradicionais, realizo por conta própria o desejo autoritário de vocês: está decretado o fim do carnaval!

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