Sharon Stone: ‘As mulheres querem ser ouvidas’

Em entrevista a VEJA, atriz fala sobre experiência com Harvey Weistein, Donald Trump e a hemorragia cerebral que a afastou do trabalho

Mariane Morisawa, de Nova York



2 fev 2018, 21h10

Uma das atrizes mais emblemáticas dos anos 1990, graças a filmes como o impactante Instinto Selvagem, de Paul Verhoeven, em que se notabilizou por uma sensual cruzada de pernas, e Cassino, de Martin Scorsese, Sharon Stone andou meio sumida nos últimos anos, com pequenos papéis aqui e ali.

Em 2011, ela sofreu uma hemorragia cerebral que a fez perder a memória e, naturalmente, afetou a carreira. Mas voltou com força em Mosaic, série de suspense assinada por Steven Soderbergh para a HBO, com seis episódios, exibidos em janeiro na TV e agora disponível na HBO GO. Em Mosaic, ela interpreta a escritora de livros infantis Olivia Lake, que dá abrigo a um jovem e bonito aspirante a artista (Garrett Hedlund) enquanto se envolve com um vigarista profissional (Frederick Weller), contratado para persuadi-la a vender suas terras.

Foi sobre o retorno às telas, mas também sobre Donald Trump, seu ativismo humanitário e Harvey Weinstein, o tema do momento há meses, que ela falou a VEJA:

 

A senhora sofreu uma hemorragia cerebral há sete anos. Teve receio de aceitar o projeto por questão de saúde? Sim, a minha principal preocupação era a minha saúde. Não sabia se era capaz de fazer a série porque perdi minha memória. Não sabia se ia conseguir me lembrar das falas. Foi um desafio.

Esse retorno é uma retomada da carreira? Tenho esperança de que sim. Contratei um agente e um gerente. Falei com meus filhos. Nossa família acha que está pronta para eu voltar a trabalhar. E ao fazer Mosaic eu me senti estável, senti que era capaz e estava pronta para trabalhar. Foi só depois de terminar que contratei o agente e o gerente porque provei para mim mesma que conseguia lidar com isso.

Trabalhei com Harvey por muito tempo. Não fiquei chocada e não estou chateada com o que está acontecendo com ele.

Seu currículo é repleto de mulheres fortes e proativas. Quanto disso reflete a sua personalidade? Tive um professor maravilhoso, chamado Roy London. Em períodos difíceis na primeira etapa da minha carreira, ele falava: “Os homens não vão se interessar pelo que você pensa. Diga a eles como se sente. As pessoas não podem discutir com seus sentimentos”. Ele me deu ferramentas interessantes para discussões. Vivemos uma nova era, em que é possível as mulheres dizerem o que pensam, e seus pensamentos terem valor e significado. As mulheres querem ser ouvidas. É algo extraordinário poder ser quem realmente você é.

O que mudou para as mulheres em Hollywood, especialmente depois das denúncias contra Harvey Weinstein? Trabalhei com Harvey por muito tempo. Tive até um acordo de produção com ele. Então, conheço Harvey. Não fiquei chocada e não estou chateada com o que está acontecendo com ele. Mas não acho que se trate apenas de Harvey Weinstein. Acredito que começou com nosso presidente e a frustração das pessoas em serem ouvidas. E elas decidiram que iam, sim, ser escutadas. Não fico surpresa. Um professor costumava dizer que a mudança acontece num segundo, é a preparação para a transformação que leva tanto tempo. É assim que me sinto.

O que acha do presidente Trump? Lamento muito. Lamento muito. Lamento tanto.

Você sempre foi muito ativa politicamente, especialmente no Oriente Médio. De onde veio isso? Tudo começou quando fui a Davos falar de aids. O tsunami aconteceu na Ásia e fui chamada para atuar com os atendentes de emergência porque já tinha trabalhado com mortes em massa. Depois comecei um movimento por telas para o combate da malária. Me perguntaram o que eu queria fazer, e respondi que era trabalhar pela paz no Oriente Médio. Então, o Shimon Peres, que era primeiro-ministro de Israel, me contatou. Dei aula de teatro para israelenses e palestinos. Ele foi uma grande influência. Criamos um movimento de paz online, chamado Yalla, com mais de 1 milhão de jovens do mundo todo discutindo a paz. Essa coisa do Trump mudar a embaixada, criando mais instabilidade numa área já tão cheia de morte e drama, parte meu coração.

Acha frustrante ter esse movimento pela paz, e a paz parecer cada vez mais distante no Oriente Médio? Não acho que devamos enxergar assim. Para mim, temos de ir em frente da forma como pudermos. Trabalho com Betty Williams, que foi líder da marcha das mães em Belfast nos anos 1970. Construímos campos de refugiados. Trabalho com Andrea Bocelli para financiar escolas na Jordânia, na Itália. Acho que não podemos decidir o que é frustrante nas ações dos outros, mas, sim, o que você está disposto a fazer. E como está disposto a ir em frente. Estamos num momento de triagem, que parece muito difícil, mas é preciso tomar uma posição. Mosaic é uma obra metafórica. Cada um precisa enfrentar escolhas difíceis, decidir para onde vai e como vai se desenvolver. Todo mundo na série está olhando para dentro e se enfrentando e se trabalhando. Acho que estamos no mesmo processo num nível global. Não podemos mais sair por aí matando todo mundo.

Vivemos uma nova era, em que é possível as mulheres dizerem o que pensam, e seus pensamentos terem valor e significado. As mulheres querem ser ouvidas.

Como foi trabalhar com Steven Soderbergh e como ele se compara aos outros grandes cineastas com quem já trabalhou? Ele é amigo do Martin Scorsese. E faz todo o sentido para mim, porque ambos são ótimos diretores. Steven é inacreditável. Ele é um dos melhores com quem trabalhei. Ele mesmo opera a câmera, o que é fenomenal.

Mosaic inovou ao aliar a narrativa da TV com um aplicativo para celular nos EUA. Você é ligada em tecnologia? Tenho filhos de 10, 11 e 17 anos de idade. Quando meu filho mais velho tinha 10 anos, ele começou a vender para mim e para os meus amigos lições de 10 minutos por 10 dólares para aprendermos a usar nossos telefones. No fim, foi um grande negócio. Ele nos ensinou a usar nossos iPhones, nossos computadores. As pessoas me ligaram para falar com ele. Daí, começou a construir computadores. Eu só ajudava a separar as partes, porque não tinha ideia do que fazer. Meus filhos são muito mais ligados em tecnologia. Tendo crianças que não carregam mais livros, mas iPads para a escola, que fazem sua tarefa de casa no tablet, você precisa saber um pouco de tecnologia.

 

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